FUNDAMENTOS DA DANÇA DE HELENITA SÁ EARP

 

Os Fundamentos da Dança de Helenita Sá Earp possuem um conjunto de princípios filosóficos, pressupostos epistemológicos e metodológicos que são capazes de instaurar agentes diversificadores da linguagem corporal no desenvolvimento integrado de habilidades motoras, interpretativas e criadoras.

Os Parâmetros da Dança: Movimento, Espaço, Forma, Dinâmica e Tempo e seus Agentes de Variação possuem uma consistência interna em relações de sistematicidade que propiciam a interação da linguagem da dança com as demais áreas do conhecimento.

Como não se tem nenhum padrão de movimento a seguir e como a pesquisa de movimento é ilimitada, uma pessoa pode dançar a partir de diferentes tipos de sons, palavras, poesias, desenhos, pinturas, croquis, mapas, instalações, equações, teorias científicas, textos filosóficos, luminosidades, fotografias, filmes; portanto de toda e qualquer situação que seja instauradora de uma mobilização poética, seja ela qual for.

A metodologia de ensino de dança proposta por Helenita não é fechada porque parte de situações exploratórias originárias presentes nos próprios atributos intrínsecos da corporeidade, em seus aspectos de movimento, espaço, forma, dinâmica e tempo.

Estes atributos estão presentes na corporeidade humana como também nos demais fenômenos do universo. Neste sentido, são princípios universais que estão presentes em todas as coisas. Isto nos permite, por exemplo, relacionar a dança com as geometrias topológicas, pois forma, função, estrutura, arranjo e configuração se caracterizam como aspectos comuns das artes e ciências.

Com isto podemos relacionar o movimento corporal e entende-lo como pertencente à corporeidade de todas as coisas, o que facilita o uso de imagens e símbolos, em estreita vinculação com o conhecimento detalhado da diversificação do movimento. Deste modo, tanto a linguagem anatômica (objetiva e científica) quanto a linguagem metafórica (simbólica e artística) podem interagir mais, sem dicotomias. O conhecimento anatômico e cinesiológico, fecundado pela criatividade, além de revelar-se e integrar-se em si mesmo, também pode ser relacionado com a corporeidade do universo em diferentes abordagens e temáticas presentes nas ciências, artes e filosofias.

Todos os parâmetros estão intimamente ligados e a delimitação e sua organização em separado é um eficaz recurso didático para o ensino e a criação na dança através de:

1) Redes de conhecimentos na dança gerados por como princípios e agentes diversificadores da linguagem da dança em diferentes relações no desenvolvimento integrado de habilidades motoras, interpretativas e criadoras; 2) Conceitos e imagens do corpo nas suas relações com o Movimento, o Espaço, Forma, Tempo e Dinâmica; que se conformam através de uma interpenetração orgânica com processos de improvisação; 3) Técnica criativa e estudo da composição coreográfica gerando competências múltiplas dentre de um mesmo enfoque temático; 4) Constelações de conhecimentos advindos da interação entre a linguagem da dança com demais manifestações e modalidades artísticas na constituição de múltiplos enfoques de roteirização e encenação coreográfica; 5) Desenvolvimento de conexões da linguagem da dança com o conhecimento da sua fisicalidade advindos de conteúdos das ciências, tais como anatomia, cinesiologia, bioquímica, matemática, geometria, história, física, biologia, entre outras e 6) Enfoque numa pedagogia de inovação que promova a instauração de diversas estruturas e tipos de aulas capazes de fornecer subsídios para a criação de diferentes práxis de ensino de dança mais coadunada com os desafios da dança no contexto da arte contemporânea.

Neste sentido, os processos experimentais de pesquisa coreográfica partem da visão presente nos Fundamentos da Dança de Helenita Sá Earp onde a dança é intrínseca a todas as manifestações sonoras, plásticas e cromáticas.

 

Princípios filosóficos

Helenita Sá Earp freqüentou os cursos do professor Huberto Rodhen cujos ensinamentos foram fundamentais para o desenvolvimento de suas concepções filosóficas sobre a dança. Com base nas idéias de Rodhen, a dança, segundo Helenita, revela ser uma profunda unidade na mais vasta diversidade. Por este pressuposto compreende-se que todo fenômeno é uma particularização do infinito. Todas as formas vêm do fluxo do infinito como particularizações deste. Particularidades que em si mesmas estão permeadas pela presença da fonte infinita da qual emanam, onde todos os múltiplos flutuam, aparecem e desaparecem.

 

No Uno não existe movimento, mas de sua infinita Potencia criadora surge o primeiro movimento como vibração – luz e som – que se manifesta numa estrutura bipolar, em outras palavras, do Uno surge o múltiplo, sendo este múltiplo estruturado numa bipolaridade complementar. Desta forma, a natureza dual intrínseca à coisas manifestas, são concebidas pela Professora Helenita como o segundo princípio filosófico da dança, que é o Princípio da Bipolaridade Complementar, sendo este a base do Princípio do Ritmo tal como concebido por Earp. Esta bipolaridade complementar permeia as concepções da natureza segundo as concepções da física contemporânea, como no binômio contração - expansão na teoria do big bang e da onda-partícula na mecânica quântica.

 

O microcosmo e o macrocosmo são aspectos múltiplos de uma realidade única. O ser humano é um microcosmo feito à imagem e semelhança do macrocosmo. Em seu pensamento, a relação entre movimento, ritmo, forma e dinâmica é que permite a estruturação da matéria. Os estados da matéria são determinados pela distribuição rítmica entre energia potencial e energia cinética. 

 

Neste contexto fica claro verificar que o objetivo essencial da dança segundo a professora Helenita é de realizar a harmonia universal do movimento. A dança inerente a todos os seres deve ser realizada aqui e Agora, uma re-ligação constante do ser humano com o universo. É um sentir, é um pensar, é um fazer em integração. É estar em conexão com tudo e com todos, é viver na consciência do princípio gerador de todas as coisas, é expressar o belo em atitudes sem condicionamentos e pré-conceitos. Então, para ampliar a capacidade de receptividade do ser humano à harmonia do movimento, a professora Helenita enfatizava que qualquer movimento em qualquer processo de trabalho na dança, deve ser feito com integração. Neste contexto, não existe criatividade sem que haja liberdade.

 

A criatividade é uma abertura ao fluxo do infinito, transformando os canais de expressão. Isto significa que a dança em sua expressão artística é a capacidade do ser humano agir conforme seu ser intuitivo, isto é, sua capacidade de revelar-se sem aprisionamentos e fixidez. É por isso que nos Fundamentos da Dança de Helenita Sá Earp, a atitude do sujeito é determinante para que esta abertura possa acontecer. Todo indivíduo deve buscar com sinceridade esse despertar e assim dinamizar essa dança que habita potencialmente em forma latente no seu ser.

 

Portanto, este tipo de visão da dança permite com que haja superação de oposições cegas e dogmatismos, isto é, como revelação constante da criação e como agente de integração ilimitada entre todas as ações. Esta visão de unidade na variedade na dança permite compreender que todas as formas e todas as técnicas, em qualquer ação particular humana, possa ser vista de modo equânime. Estas passam a ser entendidas pelos princípios que se manifestam nas formas em movimento, e assim, com isso, resgata-se a visão do infinito imanente na concretude do movimento.

 

PARÂMETROS DA DANÇA

Este modo de conhecer a dança pode facilitar o acesso não fragmentado entre diferentes processos de ensino e criação na dança, onde a corporeidade é vista através de seus aspectos como movimento-espaço-forma-dinâmica-tempo. Estes aspectos da corporeidade são denominados Parâmetros da Dança. Estes são concebidos como princípios geradores e diversificadores das ações corporais. Desta forma, os Parâmetros da Dança e seus Agentes de Variação permitem simultaneamente, tanto a delimitação de especificidades da ação corporal, como também, a conexão destas especificidades em expansões ilimitadas.

O movimento ocorre no espaço físico, mental, emocional. Sendo possibilidade de interação, esta interação só pode se dar na diversidade, nas diferentes distribuições da forma (Ritmo). As diferentes vibrações e densidades da matéria são resultantes e condicionam as conexões da multiplicidade, a fim de que estas possam interagir entre si.

 

O movimento, a nível físico, modifica a Unidade Anatômica Extensional. Esta é a referência inicial sobre a qual se estabelece o estudo das distribuições da forma. A forma só pode vista no instante. A duração define a transformação da forma. Seus desenhos se diversificam conforme a relação de permanência e impermanência em uma determinada situação em diferentes temporalidades. Não pode haver movimento sem uma relação espaço-tempo.

 

Toda esta morfologia em movimento é sustentada pela energia. A relação forma-energia são facetas da mesma realidade. A relação entre os diferentes estados sutis e densos da matéria são fundamentais para o estudo da corporeidade. Assim, a estrutura de cada forma tem uma intensidade própria, uma dinamogenia. Assim todos os parâmetros são intrínsecos à estrutura da corporeidade. Os movimentos do corpo físico se interconectam com a mente e as emoções, afetando-se mutuamente e definindo a personalidade humana – que nada mais é que instantes na duração da corporeidade.

 

Desta forma, a qualidade com que realizamos os movimentos depende do grau de energia conscientizada na ação. A energia é dinamizada pela relação entre atitude interior e exterior, pelo grau de conscientização em cada ato, pela integração em cada ato.

 

O que exercitamos através da fisicalidade, através de todo esforço dado ao movimento, dado à transformação da forma, dado à transformação da energia, em cada situação do corpo e em cada duração do corpo no espaço geram as condições de mudança. Abrem o campo da corporeidade. Os aspectos múltiplos da corporeidade são camadas de energias que devem ser mobilizados em conexões conscientes que vitalizam o colocam o corpo como um campo aberto para expressão do Ser.

 

Desta forma, a corporeidade é constituída por camadas de energia. Todo esforço que fazemos para desenvolvermos criadoramente o movimento, dando qualidade a nossa ação, transforma a forma e faz emergir a Forma Plena – o Movimento Real. Aprofundar as potencialidades do corpo como um processo de auto conhecimento, libera as energias contidas nos nossos músculos, no nosso sangue, na nossa respiração, nas nossas células, nas nossas batidas do coração, nos nossos nervos, nos nossos pensamentos e emoções, na relação com o outro e como o ambiente construído e natural.

 

Desta forma, esta concepção de dança, como manifestação da arte em movimento, em suas variadas e ilimitadas expressões requer o desenvolvimento de um processo técnico e pedagógico aberto que permita o eclodir das possibilidades corporais.